sábado, 29 de outubro de 2011

RE: Manifesto internacional a respeito da vida acadêmica e da produção do conhecimento científico, por Bruno Araújo Silva.

A universidade é uma instituição que faz parte do Estado Capitalista que por sua vez faz parte do sistema capitalista e, por isso, evolui junto com este, acompanhando os seus ritmos. Constitui um espaço com grades que aprisionam as pessoas e as fazem pensar serem distintas. Você já começa a vida ouvindo dizer que “sem universidade você não é nada” ou “o conhecimento está dentro da universidade”. Do mesmo modo, quem não tem curso superior se sente menor e muitos vivem até a morte na sensação de ter uma eterna divida a cumprir: levar para casa um diploma que supostamente à torna diferente. Será este papel sagrado? Será a graduação essencial e uma via obrigatória por onde se deva passar? Ou a vida está espalhada nos mais diversos caminhos possíveis de se viver entre diagonais e curvas que se figuram, desfiguram e re-figuram? Outro dia uma professora da UFRB me perguntou se eu continuava estudando. Eu respondi que sim e ela me perguntou onde estava fazendo a pós-graduação. Ao reponde-lhe que não estava fazendo nem pós nem graduação ela automaticamente afirmou que eu não estava estudando.
Penso que nem o próprio sistema universitário acredita em si mesmo. Como antes alguém formado poderia lecionar em uma universidade e agora existe um muro que separa distinguindo os apenas formados, os quais supostamente não têm a menor condição de ensinar dentro do próprio espaço que o formou, daqueles que fizeram uma pesquisa de 2 anos ou 4 anos? Um curso de graduação não deveria deixar-nos apto a participar de um processo seletivo dentro do ensino superior? Ou será que o mercado de trabalho está sendo saturado em todas as partes e criam-se discursos colocando as pessoas estudando por mais tempo, esperando passivamente serem inseridas dentro do mercado?
Todos os dias milhares de teses são defendidas e armazenadas nos bancos de dados, compondo apenas números. Pelo menos, não ficam mais empoeirando numa estante esquecida e ocupando espaço. Estamos na era da produção em série, somos máquinas operativas. Como pode milhares de pessoas terminarem a graduação e ingressar diretamente em um mestrado e emendar num doutorado e ainda fazer uma pesquisa dentro de um limite de tempo estabelecido. A dissertação se torna uma prestação de conta, assim como pedem os editais de cultura resultados quantitativos dos projetos culturais que são aprovados.
As pessoas que estão graduando e terminando o seu curso estão sempre preocupadas em corresponder exigências alheias as suas pessoas mesmo que inconscientemente. Na minha experiência em história as perguntas são sempre do tipo: “que marco cronológico deveria ser minha pesquisa?”; “Ela fica bem na corrente X ou Y?” ou “de que corrente eu sou?”; “vou ter mais pontos para um concurso com especialização ou mestrado?”. São sempre perguntas superficiais de pessoas que ainda estão novas, que mal se conhecem e ainda nem sabem o que querem da vida e/ou se encontram pressionadas pelas questões financeiras e familiares de ser “alguém na vida”.
Durante toda minha graduação praticamente não vi uma pesquisa que houvesse um envolvimento real da pessoa enquanto ser, existência procurando construir algo para o mundo real e/ou para si mesmo a partir de algo que vem de dentro do ser. As pesquisas estão voltadas as demandas dos grupos políticos de professores que homogeneízam a universidade e a estratificam, demonstrando uma supervalorização para aqueles que ingressam no mestrado.
É assim que funciona a universidade e seus congressos, pois ela está dentro dessa sociedade capitalista que fazemos parte. E por seus membros que a constitui pensarem estar fora a faz estar dentro de modo desconectado com o mundo real. Uma bolha fechada e iludida.

Na universidade e em seus congressos sempre me passou a sensação que nos dedicamos muito mais a responder os procedimentos operacionais de uma pesquisa de forma a fechar o circulo sem deixar uma ponta solta do quê o próprio conhecimento. Nenhum paradigma é quebrado nem nada de novo é construído. As pesquisas são orientadas mais no interesse de provar a boa execução do método em seu trabalho individual. Se o interesse é pela produção porque não escrevem coletivamente uma tese de mestrado ou doutorado? Por que tem que ser tão individual, porque tantas citações e identidades forjadas? Um mundo que não se reconhece nem a si mesmo está sempre sentindo a necessidade de se aprisionar as identidades, a um rosto, a uma história dentro de um espaço vazio cercado por muros invisíveis. Quem pensa que a universidade se diferencia de outras dimensões da sociedade está inteiramente enganado e a consome como uma macdonald´s e uma coca-cola. A universidade dita pública é opressora, fechada e excludente, uma propriedade privada, servindo ao capital e as pressões do mercado, mas jamais emancipadora.
Tudo gira em torno disso nesse mundo fudido: grana e prestigio social.
Agora licença porque estou fazendo uma pesquisa complexa tentando entender como o sopro do ar junto com alguns pássaros cantando na minha janela as 6 hs da manhã deixam meu corpo vibrante e mais sereno. Estou analisando as diferentes sensações e como meu corpo e mente reagem durante o dia a partir desses elementos e de algumas misturas: sexo ou um banho frio no mar nesse mesmo horário. Parecem-me super interessante e estou fazendo investindo nisso ultimamente.

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Bruno Silva.

1 comentários:

  1. uma pena que nos pasteurizamos tanto, e automático e emblemáticos, não conseguimos enchar um palmo a nossa frente diante dessa neblina de possibilidades, gulosos de mais enquanto a nossa digestão, do dia anterior ainda vai vencer...

    Precisamos entrar em casa, para sair ... e não ficar eternamente, voando presos pelo pé...

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