eu,
que nunca fui concretista
que nunca fui marginal
que cheguei demasiado tarde à todas as festas e modernidades
que fui obrigado a interrogar a cerca quando o pássaro voava
que ninei meus fantasmas como se fossem meus únicos contemporâneos
que desperdicei todos os ventos em nome de uma divindade morta
que acumulei os dias entre outros vestígios e anomalias
que nunca me deixei satisfazer nem quando a espreita parecia total
que vi meus melhores delírios se afogando num mar de promessas estúpidas
que deixei de acreditar antes que a noite atingisse seu ápice
que perdi meus dedos na umidade dos úteros
que nunca cheguei a compreender a lógica dos preços
que estagnei quando necessitava me movimentar
que amordacei onças com silêncios arrancados às pedras
que fugi da guerra quando a batalha foi contra o mar
que me separei de mim mesmo pra poder respirar
que sobrevivi a todos os naufrágios
que parei de escrever quando amanheceu
que cantei e cantei e cantei até águas de não mais parar
eu,
que há muito tempo invento falésias em meio às falácias
que desisti dos orgasmos e das quaresmas
que nunca acreditei em vitórias ou proletariados
despertei com uma preguiça de alegrar os olhos
e uma vontade irresistível de nada a declarar.
nuno g.
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